Saudade do tempo em que o riso a toa escoava madrugada a dentro. Saudade de quando o excesso de palavras era exaustivo e culpado a ponto de esquecermos de falar o que importava. Saudade de quando as manhas chuvosas costumavam ser alegres. Saudade de quando o despertador as 6:00 não despertava só o sono pra longe, despertava-me um riso ecoante. Saudade do abraço abrigueiro que putrefou com as mentiras. Saudade de quando o céu cintilava azul ao contrário deste cinza mórbido que hoje asfixia-me.
Eu o dei a mão para reergue-se quando o mundo vomitava "infâmias" sobre si. Mas ao tocar-me sorrindo docilmente ele levou consigo a minha inocência, o meu riso, e o pior levou a confiança que eu tinha para com o mundo. Vejo todos com malícia e perversão, todos como sendo ele, sonho com membros mutilados flutuantes sob o sangue em sincronia dançante, vejo cabeças decapitadas e seus corpos debatendo-se suplicando piedade, eu vejo o mundo ardendo em eterna chama pagando por toda a confiança e inocência arrancada de uma criança tola que rir atoa para um qualquer.
Mas ele até disse que gostava um tiquinho de mim, até achava engraçado o som burlesco do meu riso. Por pura maldade eu sei, ele sabia que aqueles pequenos e falsos momentos bons, daria uma impressão futura de realidade continua. Então eu o matei e o mato novamente, todos os dias, mas ele é impertinente e insiste em renascer, assim são as raízes de um balboa quando ficam-se, tornam-se extermináveis.
E o trem segue no embalo dos trilhos, o tempo nebuloso ainda cheira a sua fumaça, de longe eu ainda o vejo indo-se a desfazer seu destino no horizonte. Um rancor amargo forma-se em minha garganta, não há como arranca-lo e deixar o ambiente ao seu redor intacto. O que sobra são os buracos do que me foi arrancado, o que jamais voltará no embalo barulhento do trem, o não doer do que mais dói: Saudade. Saudade da ingenuidade, dos beijinhos que saravam o doer dos arranhões. Saudade... de quando não havia saudade.
Ananda Albuquerque
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